Da diferença entre humor e preconceito
(e um apelo aos formadores de opinião)
por Reverendo Thomas Heat
Aqui no vaca, nós sempre declaramos que piada não deve poupar ninguém. Cegos, surdos, mulheres, paralíticos, gatos, políticos, gays, religiosos, não importa - se a anedota é boa, às favas com a correção política. Aliás, nada mais democrático do que isso, não é?
Ainda assim, não são raras as vezes em que somos taxados de preconceituosos, por pessoas que não entendem bem a diferença entre uma observação engraçada/piada e um comentário racista/homofóbico/machista/whatever.
Pois bem. Eis que, dia desses, o Reverendo presenciou
in loco uma situação em que esta dicotomia se revelava claramente. E resolve publicá-la agora, para esclarecer esta questão de uma vez por todas.
Estávamos eu e a Sra. Heat em uma confraternização na casa de uma amiga aqui na capital do Tôca. Papo vai papo vem (e não tenho idéia de como a conversa chegou aí, mas deve ter algo a ver com o bom atendimento, sem distinção de clientela, prestado no Amarelinho), eu e um amigo londrinense comentamos como era curioso o tamanho dos travestis da av. Tiradentes.
(Aqui cabe uma contextualização aos não-londrinenses. Por algum fenômeno que me foge à compreensão, os travecos que trabalham na supracitada avenida são sempre sujeitos muito altos e fortes - ou pelos menos, sempre me pareceram ser, seja passando de carro, seja à pé, rumo ao saudoso Mecenas.)
"São uns zagueiros! Já vi uns grandes como o Júnior Baiano", disse eu - e, juro, vi mesmo. Mas logo passei para o fato de que toda cidade tem uma avenida só deles, e que eu nunca tinha visto qual era em Palmas.
Nisso, uma das presentes - moça que sempre pareceu ser bacana até então - resolve se manifestar. Uma moça "alternativa" - cabelo pintado de preto, sempre de all-star, regatinhas sobrepostas...sacam o estilo? Então. Ela pega e solta a pérola:
"-Ah,lá na minha cidade, eles ficam na praça tal. Um dia, eu e um amigo saímos e tacamos uma caixa inteira de ovos neles!", disse, com a esperança de que todos fossem rir.
Alguns segundos de silêncio. Todos olhando de forma meio constrangida. O Reverendo resolve se pronunciar:
- "Porra, que sacanagem! Os caras tavam trabalhando!"
- "Pode ser, mas que foi engraçado, foi! Ah, tomávergonha!", respondeu a estorninha, cheia de si.
Quase que eu falei "e que diversão de playba essa sua, hein, sua filhadaputa?!", mas julguei prudente não começar briga na casa dos outros. Além disso, provavelmente não ia adiantar: momentos depois, após a infalível roda de beck (ou sie lá como se soletra essa merda), passa a mesma dita cuja dizendo: "Meeeu...hoje eu tô tão doida que, se um psicólogo me analisasse, eu é que ia pirar ele". E, depois duma dessa, argumentar é dar murro em ponta de faca. Resta apenas torcer para o carro do playboy miserável morrer um dia desses - e a navalha comer solta.
Bem, era isso. Como eu já disse em
posts anteriores, eu acredito que o preconceito não está em piadas ou constatações engraçadas, e sim nas atitudes e no seu pensamento real sobre o tema. Todo mundo tem um lado engraçado - sejam cegos, surdos, mulheres, paralíticos, gatos, políticos, gays, religiosos. Mas ninguém merece levar ovo por causa disso - pra usar um bom eufemismo.

"-Diversões favoritas? Queimar índios, jogar ovos em travestis, agredir negros...e ouvir muito The Killers no meu iPod!
P.S.: Quem acertar de ONDE veio a infeliz patricinha homofóbica disfarçada, ganha uma xícara de leite quente.
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Gostaria de pedir aos colegas de todo o país que parem de se referir à teúda e manteúda do Renan como "jornalista Monica Veloso". A opinião pública já faz um julgamento ruim o bastante da moça sem saber a profissão de merda que ela tem.