OTÁRIOS, IDIOTAS E AFINS: O CINEMA NÃO É LUGAR PRA VOCêS
por Reverendo Thomas Heat
Eu sou foda. Eu sou capaz de prever o futuro.
Estava eu no cinema, esperando para assistir “Johnny e June” (título brazuca porco de “Walk the Line”, cinebiografia do fodão Johnny Cash), a observar a fila para a sala ao lado, onde estava sendo exibido “O segredo de Brokeback Mountain” - filme “polêmico” que conta a história de dois peões que se apaixonam. Neste momento, o Reverendo teve a premonição: “metade desta fila é composta por babacas que vão ficar falando 'dãããã, olha que viado, dãããã' durante todo o filme”.
Bem, ontem eu fui ver Brokeback Mountain, e minha visão do porvir estava corretíssima. Pena que eu não previ o quanto eu ia me irritar com isso.
No primeiro beijo dos caras, metade do cinema cai na risada e começa a fazer comentários idiotas. Isso estava previsto e nem seria assim tão ruim, não o fosse o fato de que, na mesma fila em que eu e a Sra. Heat nos sentamos, estavam também uma turma de 3 meninas mais retardadas que o resto dos retardados.
Durante todo o filme, ouvíamos coisas do tipo “que nojo”, “meu, que viado”, “não façam isso, vocês são gatinhos”, “isso, pelo menos finge que é homem”, “olha, o viadinho está chorando, que bichona”. A partir da terceira frase, todos seguidos por um “cala a boca, ignorante!” ou “vai tomar no cu, porra!” proferidos em fúria pelo casal Heat.
Filhas da puta, todas elas. Analfabetas, débeis mentais, prometidas ao capeta!! E inconvenientes - caralho, não sabiam sobre o que era filme? Se as mentes nazistinhas homofóbicas das pequenas vadias (e de todo o bando de babacas que faziam o mesmo) não suportam a idéia de dois caras se apaixonando, POR QUE FORAM LÁ VER?! Ficasse em casa, rezando o terço! Assistindo o R.R. Soares!!
Ora, se eu e a Sra. Heat, que não somos homo e temos lá uma tendência ao humor preconceituoso (tá, EU tenho - divagações sobre o tema nos próximos parágrafos), fiucamos irritados e mesmo ofendidos, imagine o que não sentiram os vários bichas na platéia. Isso é coisa de moralista filhadaputa, de gente que se julga melhor que os outros, e que tem que demonstrar.
Nessas oras, pelo menos eu fico feliz de ter a educação que eu tive. Fico contente em saber que a visão de dois caras se beijando, seja no cinema ou na rua, não me enoja nem choca, e passa como coisa normal. Porque É normal! Cada um é feliz a sua maneira, e PONTO!
Para os leram até aqui e vão que me acusar de hipócrita: sim, eu sei que, aqui no vaca, já fiz diversas de piadas de viado. Bem, vou continuar fazendo piada com o que me convir - porque piada não deve poupar ninguém. Faço piada até comigo mesmo, oras, não vou fazer com os outros? Aliás, confesso que pensei em diversas durante o filme (acho que vou dublá-lo à lá “batiman” um dia). Mas o negócio é saber separar as coisas.
Ou seja: na hora em que for necessário, você saiba respeitar e apoiar o livre arbítrio e as escolhas das pessoas. E que e esteja disposto lutar por eles se você acreditar que for preciso - mesmo que esta “luta” seja apenas mandar à merda a ganguezinha de homofóbicas no cinema.
Enfim, falei demais, vamos ao filme em si: achei bacana, mas só. Fica bom mesmo mais pro final, quando chega a ser tocante (sem trocadilho - não disse que é irresistivel?). Mas só. E o cowboy Ennis fala com um sotaque irritante.
Destaques :
- Direção de fotografia, pro Rodrigo Prieto (que inclusive faz uma ponta como o michê que Jack contrata no México). Tá muito bonito!
- Anne Hathaway, que interpreta a mulher de um dos caras. Me surpreendeu ao passar tão rapidamente da mocinha de “O Diário da Princesa” para a boa atriz disposta a mostrar os (belos) peitos no contexto de um filme sério. Aliás, se alguém tiver um still frame dessa cena, por favor me mande, para fins de ilustração deste post (vem ni mim, google: anne hatthaway topless).
Sem mais, despeço-me. Se você for ver este filme e passar pela mesma situação, faça o que eu não tive tempo de fazer e dê de dedo na cara dos babacas mais próximos. Gradicido.

“-Olha, meu, que viado! Alá, alá...que nojo! viadão!”
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
NORRIS, Chuck -
Porrada: solução simples para dilemas complicados - Estados Unidos: Editora Braddock, 2003
RATZINGER, Joseph -
Ignorância e Medo: uma combinação lucrativa - Vaticano: Editora Jesus Hitler, 1945